Descrição
Organizadores: Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
ISBN: 978-85-524-0013-4
Páginas: 232
Peso: 300g
Ano: 2017
Capa: Tadeu M. Martins
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Reflexão sobre a universidade contemporânea
O objetivo principal desse livro é o de debater a função social da universidade pública contemporânea, analisando as forças que atuam sobre ela, inclusive as ocultas. Reúne autores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da Universidade de São Paulo e da Ohio University State (EUA). Em particular, analisa as relações da UFSC com a sociedade local, regional e sua atuação no cenário nacional.
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Um livro acena para o necessário despertar do campus
Por Raquel Moysés – jornalista
Já está nas mãos dos leitores o livro “Crítica à razão acadêmica – Reflexão sobre a Universidade Contemporânea” (Editora Insular), apresentado à sociedade na Biblioteca Central da Universidade Federal de Santa Catarina. Noite de primavera carrancuda, chovia forte na hora do lançamento, mas o saguão da BU foi tomado por um público ávido de saber.
Nildo Ouriques e Waldir Rampinelli, organizadores da obra criticaram, em suas falas, a razão acadêmica que se apossou do ambiente universitário. Tal razão, avaliam os dois professores, tem levado a uma predominante indiferença relativamente aos problemas da maioria do povo brasileiro. O mundo acadêmico, eles dizem, “parece viver em Paris ou Los Angeles. Sem os conhecidos distúrbios, que também lá se manifestam!”.
Rampinelli, professor de História, enfatizou que a ideia deste livro nasceu do compromisso dos que o escreveram com a universidade pública. O aniversário de 50 anos de existência da universidade catarinense, festejados oficialmente em 2010, foi um dos acontecimentos que exigiu dos autores uma reflexão crítica, focalizada especialmente na história da instituição, mas carregada de matizes de acontecimentos que marcaram a vida da cidade, do estado, da nação e do mundo. A obra analisa e desvenda “forças claras e ocultas que atuam na universidade contemporânea, algumas delas na UFSC, ao longo de seus 50 anos, como a oligarquia, a maçonaria e o mercado”.
A apresentação da obra revestiu-se de caráter político, não partidário, como esclareceu Rampinelli. O lançamento aconteceu a menos de um mês das eleições para reitor e vice-reitor da UFSC, marcadas, em primeiro turno, para 17 de novembro e, em segundo turno, se for o caso, para o dia 30 do mesmo mês. Os candidatos das cinco chapas inscritas foram convidados, pelos autores do livro, para o lançamento, e três deles compareceram.
Entre a opressão e a submissão
A UFSC, como insiste a maioria dos autores, ao completar meio século de existência necessita olhar para si mesma, examinar-se minuciosamente, para ver no que acertou e errou e então decidir para onde deve caminhar. Rampinelli, que em seu artigo destaca aspectos que caracterizam, na universidade, “as opressões internas e a submissão externa”, falou na noite de autógrafos principalmente sobre a função de um reitor. Que não deve se limitar a mera autoridade figurativa e representante de um poder central.
Um reitor, disse Rampinelli, precisa ser um grande conhecedor da realidade universitária, além de também conhecer e se manifestar, cotidianamente, sobre os grandes problemas locais, estaduais e nacionais. O reitor da UFSC, ele exemplifica, deve se preocupar e se pronunciar, com conhecimento de causa, sobre questões como a destruição do meio ambiente na região carbonífera do sul catarinense; as enchentes que destroçam cidades e desesperam comunidades inteiras; como também se debruçar sobre o que afeta a vida das cidades. A começar pela capital – onde se ergue o campus principal da UFSC – uma cidade estrangulada por problemas dramáticos como o da ‘imobilidade’ urbana, apenas um dos efeitos danosos da histórica opção pelo transporte individual.
Nildo Ouriques criticou a razão acadêmica que impera no ambiente universitário e se expressa em uma mentalidade e um comportamento acadêmicos que, para ele, se traduzem em mediocridade, autocomplacência, esnobismo de classe e indiferença com relação aos problemas da maioria do povo. Para o professor de Economia, o intelectual público foi derrotado, para a desgraça das universidades, pela aparição da medíocre figura do “acadêmico”, uma mistura de fetiche e impostura.
É essa mentalidade e esse comportamento, fruto do atraso e da subserviência a preceitos externos, que precisam ser demolidos, preconizam os autores em sete artigos e ensaios, além de uma entrevista. A persistir o academicismo, a universidade contemporânea continuará muito distante do que lhe é exigido em uma sociedade profundamente marcada pela desigualdade e pela submissão ao imperialismo. Por isso é que, na obra, os autores não economizam críticas ao mundo no qual estão intrinsecamente inseridos, certos de que não podem fugir à necessária crítica. Todos com atividade intelectual e militante na universidade, eles estão convencidos de que não há a menor possibilidade de legitimação social da universidade se ela não se abrir para um novo tempo, em que cumpra, verdadeiramente, seu papel de efetiva casa do saber.
“A atitude complacente que atualmente domina o campus e que marca a carreira da grande maioria dos professores é nociva para a construção de uma universidade vital para o Brasil e a América Latina”, afirmam os organizadores. “Este livro pretende ser uma contribuição para que as possibilidades abertas pela crise global não se frustrem, possibilitando um despertar no campus universitário, este mesmo despertar cujas vozes vindas das ruas já se podem ouvir.”
Além dos ensaios de Ouriques e Rampinelli, “Crítica à razão acadêmica” apresenta textos de Célio Espíndola, Elaine Tavares, Fábio Lopes da Silva, Marli Auras (todos da UFSC) e Ciro Teixeira Correia (da USP). Um estrangeiro apenas, o estadunidense Frank Donoghue, da Ohio State University, contribui com uma análise crítica sobre as mudanças no mundo universitário dos Estados Unidos. Um mundo “quase sempre objeto de adoração por parte da consciência ingênua que orienta a atividade universitária na periferia capitalista latino-americana e especialmente no Brasil”, assinalam os organizadores. O livro traz, ainda, uma entrevista com Maurício Tragtenberg, intelectual e educador libertário que percebeu precocemente o surgimento de uma séria ameaça à vida universitária, à qual ele se refere como “delinquência acadêmica”.
Os autores extraem, de suas análises, reflexões críticas sobre as debilidades e alguma nobreza da universidade contemporânea. Assim, examinam temas como o das fundações privadas, que minam o espaço público, e o das difíceis relações entre os trabalhadores em educação na universidade (técnicos e docentes). Percorrem, nos textos, caminhos dos movimentos organizados, principalmente na UFSC, e denunciam os vícios dos processos eleitorais para a reitoria ao longo da história da instituição catarinense. Revelam, ainda, um tanto de servidão voluntária nas relações com o poder, bem como a submissão de “acadêmicos” às chamadas “revistas internacionais”, publicações a serviço de políticas científicas e econômicas “bem nacionais” de países europeus e dos Estados Unidos.
Coragem editorial
No lançamento, os organizadores mencionaram o papel relevante que tem assumido na sociedade catarinense a Insular, como editora que mais publica hoje no estado. A Insular tem sido responsável por oferecer aos leitores brasileiros obras importantes como “História da nação latino-americana”, de autoria do intelectual argentino Jorge Abelardo Ramos, um dos livros mais influentes sobre a história do continente.
Dirigida pelo jornalista Nelson Rolim, a Insular publicou recentemente inclusive um livro cuja não publicação pela UFSC foi reputada como censura e até gerou um abaixo-assinado internacional, firmado por intelectuais latino-americanos. Trata-se do livro “O terrorismo de Estado na Colômbia”, escrito por Hernando Calvo Ospina, jornalista colombiano e refugiado político que hoje trabalha no jornal francês Le Monde Diplomatique.
Já publicado em espanhol, francês e alemão, o livro foi encaminhado, em 2009, para a editora universitária, recebendo parecer favorável de dois analistas externos, ambos professores de Relações Internacionais. Acabou rejeitado, porém, por um conselheiro editorial interno, da área de Engenharia Elétrica, cuja posição contrária à publicação da obra acabou sendo acatada pelo Conselho Editorial. A edição brasileira só saiu porque sete sindicatos pagaram as despesas de tradução e a Insular assumiu a publicação da obra.
Rolim manifestou-se no lançamento de “A crítica da razão acadêmica” para dizer que este novo livro vai cair como “urtiga no lombo de muita gente”. Ao falar sobre a longevidade de obras que semeiam ideias, ele citou o escritor amazonense Márcio Souza quando disse, em uma entrevista: É mais fácil você se livrar de um cadáver do que de mil exemplares de um livro!”
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Comentários sobre o livro Crítica à Razão Acadêmica
De fato, desde o título da coletânea, temos uma tese indicada e que traz suas provas. O importante na Crítica da Razão Pura, dizem os comentadores, reside no genitivo. A crítica é da razão pura pela razão pura. Ou seja, o procedimento é de plena autonomia, sendo o sujeito passível de se encontrar consigo mesmo, num movimento livre. A razão deixa de ser criticada pela religião ou pela jurisprudência (o célebre enunciado do Prefácio) e arranca de si mesma a critica de si mesma. A razão, na atual universidade (mas já no tempo de Kant, basta ler “O Conflito das Faculdades”) não é livre: ela é cativa ou alienada. Não seria possível, pois, escrever uma crítica da razão acadêmica. Apenas, como vocês bem definiram, uma crítica à razão acadêmica.
Parabéns pela iniciativa! Desde que recebi a coletânea [Crítica à Razão Acadêmica – reflexão sobre a universidade contemporânea, Editora Insular, Florianópolis, 2011], a leio com vagar. Gostei muito do que segui com os olhos e a mente. Fiquei muito impressionado com a similaridade do processo de puro descarte da educação pública nos Estados Unidos e no Brasil (Frank Donoghue). Entre nós, as universidades que visam o lucro conseguem seu alvo, com pleno apoio oficial. É espantoso notar como “universidades” compram outras, ampliando seus dividendos e levando estudantes pobres ou de classe média ao endividamento, no mesmo passo em que recebem polpudos recursos governamentais. Nada temos, nas agências de “fomento à pesquisa” contra o esbulho. Pelo contrário, temos o pleno apoio ao saque das verbas públicas. E o Conselho Nacional de Educação? Silêncio tenebroso…e cumplicidade também silente.
É preocupante notar o quanto as oligarquias regionais (as responsáveis pelo esquema de dominação) subjugam as estruturas “acadêmicas”. Tudo o que vocês indicam ao longo do Crítica à Razão Acadêmica, eu vi diretamente em minhas andanças pelo Brasil. Um amesquinhamento das eleições universitárias, como se cada reitoria fosse cópia degradada de prefeituras, dominadas com mão de ferro, por prepostos das oligarquias regionais. Certa feita, em uma universidade, fui ministrar, como convidado, um curso de pós-graduação. Não consegui fazê-lo devido ao barulho dos cabos eleitorais, dos comícios, etc. Como o que vocês descrevem para a universidade de Santa Catarina.
Mas o que julgo mais grave mesmo, em todo o processo, não é o instante das eleições, lamentáveis que sejam. O pior é o modo de funcionamento dos Conselhos Universitários. Basta olhar a pauta dos referidos Conselhos. Imensas, com indefinido número de processos que implicam em convênios com a “iniciativa privada, firmas estatais”, etc. Normalmente a pauta é distribuída aos conselheiros com pouco tempo para análise. Na reunião, o reitor pede que os presentes apresentem destaques. São debatidos os destaques e, grande parte, talvez a maioria, dos itens são aprovados sem discussão ou exame prudente. É por tal ralo que passam, quase sempre, os convênios marotos, os tratos espúrios, as fundações esponja ,etc.
Propus que existisse, ao lado do Conselho oficial, um Conselho ampliado que incluísse professores, alunos, funcionários, que debateriam e examinariam a pauta em canal oficial da Universidade. Cada setor relevante da universidade (química, biologia, engenharia, economia, ciências humanas) teria uma equipe de análise dos processos mais complicados de sua área. Depois, as análises todas circulariam pelo canal oficial da universidade, sendo acessíveis a todos os integrantes da comunidade, sobretudo aos conselheiros. Estes não teriam a desculpa muito comum: “aprovei, mas não pude ler todos os projetos”. Como sempre, a proposta foi rechaçada na base…
Bem, gostei do que li no Crítica à Razão Acadêmica – reflexão sobre a universidade contemporânea. Tenho certeza de que o trabalho será útil para os (poucos) pensantes que ainda restam na universidade. Gostei também de vocês terem incluído o texto de Mauricio Tragtenberg, um dos cérebros mais brilhantes e injustiçados dos campi. E por falar em Mauricio, senti falta de uma atualização, no livro, das análises feitas por Max Weber sobre os “donos da universidade”, os “patrões” da pesquisa, tal como desenvolvidas em A Ciência como Vocação. Mas quem sabe, um dia, será possível fazer um seminário sobre Mauricio e Weber, dando particular relevo à burocratização capitalista na universidade!
Prof. Dr. Roberto Romano
Professor de Ética e Filosofia Política
Na Unicamp – São Paulo
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