Descrição
Sob a retomada da luta social, a historiografia liberal-colaboracionista mobilizou-se pela restauração da hegemonia ameaçada das visões piedosas de Gilberto Freyre e do cativo como coadjuvante passivo do seu passado.
Em fins de 1977, Mário Maestri retornou do exílio, durante o qual defendera, na Bélgica, dissertação sobre a África Negra Pré-Colonial e iniciara tese sobre a escravidão sulina.
No Rio Grande do Sul, o jovem historiador estabeleceu laços de amizade e colaboração com Décio Freitas, celebrizado por sua história da resistência palmarina; com Clóvis Moura, destacado intelectual e militante marxista, e, em forma mais estreita, com Jacob Gorender, no centro daquele debate.
Meus Mestres apresenta a correspondência passiva de Mário Maestri com aqueles que define como seus mestres na defesa de leitura da escravidão colonial desde a visão do mundo do trabalho, no passado e no presente.
Uma correspondência que apresenta, comumente, visões singulares e pouco conhecidas de Décio Freitas, Clóvis Moura e Jacob Gorender sobre problemas ainda objeto de candentes debates.
maestri1789@gmail.com
Prefácio
Combate nas luzes: a luta pela história
Emiliano Aquino
Leem-se neste livro as correspondências passivas do historiador Mário Maestri com aqueles a quem intitula seus principais mestres no Brasil: Jacob Gorender (de setembro de 1981 a novembro de 2006), Clóvis Moura (de fevereiro de 1982 a outubro de 2001) e Décio Freitas (de agosto de 1980 a 27 de agosto de 1990). A relação epistolar com Gorender, registro de um diálogo mais amplo, pessoal, não registrado, com encontros no Brasil e na Itália, é a mais longa, e abarca 25 anos; com Clóvis Moura, 18 anos; com Décio Freitas, apenas 6, por razões que veremos a seguir.
Nascido em 1948, recém-doutorado em Louvain com uma tese sobre a escravidão colonial no Brasil, Maestri estabelece neste período um relacionamento com historiadores de uma geração anterior (todos nascidos nos anos 1920), pesquisadores os três de seu próprio tema de estudo; e, como ele próprio, marxistas envolvidos na luta política e social, tendo Gorender sido preso e torturado pela ditadura entre 1969 e 1971, Clóvis Moura militado na clandestinidade e Décio Freitas se exilado no Uruguai, após ser cassado pelo regime, ainda em 1964. Maestri mesmo retornara há pouco de um longo exílio entre 1970 e 1977 (Chile, México, Bélgica).
Encontramos, pois, nestas correspondências, uma rica troca entre pesquisadores da escravidão, de orientação teórica marxista e posição política de combate ao regime militar e, após ele, à ordem burguesa, diálogo iniciado naqueles anos em que os trabalhadores, artistas e intelectuais conquistavam certas liberdades democráticas sob o impacto das grandes greves operárias, impulsionadas pelo proletariado constituído e concentrado no recente surto de industrialização, sob financiamento e endividamento externo e monstruoso arrocho salarial. É uma interlocução entre especialistas, sem dúvida, e por isso de interesse de quem trabalha academicamente com a história da escravidão e o recente debate historiográfico sobre o mesmo; mas é igualmente um debate sobre o Brasil, a política e a cultura brasileira do período, que interessa a um público leitor mais amplo.
Cooperação científica, amizade intelectual
Intelectuais e políticas, essas cartas desenham para o leitor uma amizade assentada na participação na resistência política e no combate científico comum a Maestri e seus mestres, o jovem historiador assumindo um papel, não sei se consciente, de promover – pois é nisto que resulta o conjunto dessas missivas – um debate no interior do que se constitui uma verdadeira fração marxista revolucionária no front historiográfico do tema escravidão.
Seu relacionamento intelectual, político e até mesmo pessoal mais antigo deu-se com Décio Freitas, autor de uma ampla e fundamental bibliografia sobre o escravismo. Embora as cartas aqui apresentadas formem o menor conjunto e o menor intervalo de tempo, habitavam a mesma cidade, encontraram-se pessoalmente com frequência entre 1977 e 1981. “Muito aprendi com Décio Freitas”, diz Maestri, apresentando-nos em seguida o autor de Palmares – A guerra dos escravos (Movimento, 1971): “[…] jornalista e escritor de mão cheia, de vasta cultura histórica, autor de uma investigação não suficientemente valorizada sobre a escravidão, devido ao viés marxista, sob a falsa escusa de não ser um ‘historiador profissional’”.
Igualmente autor não acadêmico era Jacob Gorender, a quem Maestri parece ter-se esforçado por viabilizar, muitas vezes a pedido, mas nem sempre, o acesso a materiais acadêmicos sobre a escravidão. “Permito-me pedir-lhe que me traga da Itália ou da Bélgica algum trabalho de boa qualidade sobre o escravismo na Europa”, escreve Gorender (18/02/1982). Alguns meses mais tarde, antes de uma viagem ao Rio de Janeiro, onde Maestri se encontrava trabalhando na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele propõe: “[…] levarei para você um exemplar da revista Estudos Econômicos, do Instituto de Pesquisas Econômicas da USP […]. Da sua parte, gostaria de receber uma cópia xerox de La Schiavitú nell’Italia Imperiale, de Staerman e Trofimova, e do primeiro volume da obra de Fraginals. […]” (23/5/ 1983).
Essa troca permanece durante muitos anos, a ponto de, num momento em que já se direciona para a escrita de Combate nas trevas (Ática, 1987), cuja pesquisa começara em 1984, Gorender protestar em tom bem-humorado, após acusar o recebimento das “últimas remessas” de Maestri: “[…] parece que você tem a intenção ‘diabólica’ de me tentar a não abandonar o tema do escravismo” (15/5/1986). O velho comunista, por sério e formal que fosse, mantinha lá sua forma de humor.
O debate historiográfico sobre a escravidão
Um ponto central das cartas é a posição comum a Maestri, Moura, Gorender e Freitas de crítica das novas tendências historiográficas sobre as relações sociais escravistas no Brasil, que, segundo eles, tendem a amenizar a violência escravista e a negar a importância da resistência do cativo no avanço da história, na mesma direção que podemos encontrar em Casa Grande & Senzala, idealizada e descrita por Gilberto Freyre, em 1933. Nas correspondências, é Clóvis Moura quem primeiro puxa o sinal de incêndio. Relatando a reação hostil à sua crítica, no caderno cultural da Folha de São Paulo, do livro de Kátia Mattoso, Ser escravo no Brasil (Brasiliense, 1982), escreve: “[A] tese que ela defende me parece um amálgama de Gilberto Freyre e o pessoal da escola da Bahia” (24/6/1982). No mesmo ano, volta a tocar no assunto: “Estive com o Décio Freitas agora, em Recife, no chamado III Congresso Afro-Brasileiro: um congresso para a casa-grande no qual a senzala não teve acesso… […] Foi uma tentativa de se salvar o espólio gilberteano, com rediscussões já arquivadas em museus sobre a miscigenação…” (19/10/1982).
Da parte de Gorender, esse debate historiográfico se tornará o objeto de A escravidão reabilitada (Ática, 1990). Mas já na reelaboração que faz para a 4ª edição de O escravismo colonial (Ática, 1985), ele a justifica para Maestri em que, nela, encontramos “a reflexão sobre as tendências recentes na Historiografia brasileira e norte-americana […]” (10/9/1985). Aparentemente respondendo a uma questão posta por Maestri sobre o que, acima, Moura nomeia de “escola da Bahia”, Gorender responde, ainda sobre a 4ª edição de O escravismo colonial: “Não compreendi bem o que você quer dizer com ‘escola baiana’. Trata-se, por ventura, de Kátia Mattoso? Se é isto, não falta [à nova edição] uma referência contundente à sua visão patriarcalista da escravidão brasileira”. Na sequência, o mesmo diagnóstico adiantado por Moura e, segundo este, Freitas: “De modo geral, observo que o patriarcalismo de Gilberto Freyre está de volta à nossa Historiografia […]” (10/ 9/1985).
No Prefácio que faz para a publicação de L’Esclavage au Brésil (Karthala, 1991), de Mario Maestri (tradução francesa de A servidão negra (Mercado Aberto, 1988)), Gorender situa esta obra, e seu autor, nesse combate comum: “O quadro composto [no livro] caracteriza a dureza implacável da escravidão no Brasil. Por isso mesmo, refuta as teses, em crescendo nos últimos anos, a respeito de uma escravidão paternalista, benevolente, na qual o escravo vivia sob a proteção de leis equitativas efetivamente respeitadas”.
Décio Freitas e Clóvis Moura sobre o movimento negro
Em 1981, Décio Freitas, a convite, muda-se para Maceió e funda, na Universidade Federal de Alagoas, o Centro de Estudos Afro-Brasileiros. Referindo-se a um curso que ministrou, possivelmente como parte das atividades do Centro, ele se queixa a Maestri de um certo boicote que sofria de militantes do movimento negro: “Sustentam que lhes cabe a eles dirigir tal centro…” (10/6/1981). A exigência de que caberia “a eles dirigir tal Centro” expressa uma visão racialista da pesquisa acadêmica sobre a escravidão e os estudos africanos, que, num registro político, é também observada muito criticamente por Clóvis Moura. Este concebe uma relação entre as novas tendências da historiografia – “ já se transforma o quilombo não em uma unidade de resistência, mas de negociações” (10/4/1998) – e a perda política, no movimento negro, da referência de classe do trabalhador antes escravizado em favor do isolamento de sua cor de pele: “[É preciso] discutir o problema do negro ligado a outros mais estruturais da sociedade brasileira. Como está sendo feito me parece que não dá mais” (7/11/1982).
Nesse isolamento racialista do “problema do negro”, perde-se a relação dele com a estrutura social do país, situando-o somente entre os “fenômenos superestruturais” (15/3/1983). Está claro, o debate historiográfico sobre a escravidão, e a crítica às novas tendências historiográficas, seriam fundamentais para a elaboração teórica da questão racial em sua relação com as bases estruturais, não apenas superestruturais, da sociedade brasileira. Porém, lamenta Moura: “O movimento negro (por ser um movimento de classe média) vem trabalhando em cima do superestrutural […]” (15/3/1983). Como sabemos, o conjunto de suas intervenções públicas desses anos, sob essa orientação teórica e política, constituirão seu Sociologia do negro brasileiro (Ática, 1988).
* * *
Paro por aqui. Como o leitor vê sem dificuldades, essas cartas registram, no terreno das relações pessoais, um combate público que se manifestará nas obras desses autores. Nelas, a luta pelo estabelecimento científico do verdadeiro caráter da escravidão colonial é inseparável das lutas sociais do presente: da classe trabalhadora escravizada pelo salário, dos trabalhadores negros como parte dessa classe trabalhadora. O livro, que traz também – que eu saiba, pela primeira vez – as cartas recebidas por Clóvis Moura de Caio Prado Júnior sobre seu Rebeliões da senzala, publica o resultado de duas entrevistas – realizadas em setembro e outubro de 1980 – ao revolucionário marxista Plínio Mello (1900-1993), um dos fundadores da Oposição de Esquerda no Brasil, ao lado de Mário Pedrosa e outros, nos anos 1930. Documento importante da história do movimento comunista e, nele, do trotskismo no Brasil. E finda com a republicação de um ensaio sobre o escravismo colonial e sua historiografia, que veio à luz inicialmente numa coletânea de textos em homenagem a Clóvis Moura (O negro no Brasil, EdUFAL, 2003).
Fortaleza, janeiro de 2026
A modo de Apresentação
Meus Mestres – Correspondência Passiva
Nildo Ouriques
As cartas pertencem ao passado, dizem os moderninhos. De fato, a era digital parece ter enterrado para sempre a agradável surpresa de uma carta ou a alegria daquela ansiosamente esperada. É pena que as novas gerações não escrevam cartas e tampouco tenham interesse nesse antigo hábito considerado demasiadamente lento ou ineficaz para os tempos que correm. Entretanto, a pressa é inimiga da perfeição, reza o ditado popular; a despeito de certa eficácia permitida pelos meios eletrônicos, deveríamos levar a sério o peso e a importância das tradições, entre as quais, o saudável hábito de escrever cartas. Tenho comigo a suspeita que as cartas desapareceram por quê de maneira geral as pessoas não tenham mesmo o que dizer e tampouco possuem amigos e camaradas dispostos a confiar segredos ou confessar dificuldades e hipóteses de trabalho.
No estudo da obra marxiana, a vasta correspondência entre Marx e Engels – camaradas e amigos inseparáveis – constituem verdadeiros documentos que revelam ou ocultam pistas valiosas para compreender a luta política ou mesmo questões teóricas relevantes. Algumas delas são mesmo cruciais para entender as dúvidas, as opções, os projetos abandonados e suas razões. Acaso não é decisiva a correspondência entre os dois gênios do marxismo sobre a guerra civil americana? Alguém poderia descartar a correspondência entre ambos sobre o longo processo de escrita de O Capital? E o que dizer da larga correspondência entre Marx com Engels e sua adorável filha Jenny Longuet quando o Mouro foi buscar na Argélia cura para seus intermináveis males um ano antes de seu falecimento?
Aqui, nos trópicos, recordo a imensa e valiosa correspondência de Glauber Rocha com cineastas, amigos e amantes que constituem documentos sobre sua arte e sobre a vida brasileira e cubana, tanto quanto suas considerações sobre o cinema europeu e estadunidense e, finalmente, a função da arte num país subdesenvolvido sem controle de sua própria cultura! As cartas são, portanto, documentos valiosos que, temo, não teremos no futuro de maneira tão abundante quanto no passado recente.
Mário Maestri é um marxista com grandes contribuições para a historiografia brasileira; ademais, é um marxista “das antigas” com estreita colaboração intelectual com grandes pensadores da realidade nacional. Um marxista “das antigas” é um sujeito que reúne na sua trajetória o compromisso militante e a busca permanente pelo rigor teórico nos marcos de uma rica tradição revolucionária. A propósito, é necessário dizer que o marxismo acadêmico é artigo tão abundante no mercado quanto inútil para os propósitos da revolução social. É antes de tudo, uma cômoda forma de convivência moralmente justificada diante da vida pequeno burguesa na qual está comodamente instalados a grande maioria dos professores universitários, especialmente aqueles vinculados a uma universidade pública sem missão num país dependente e periférico!
A importância das cartas aqui publicadas decorre precisamente do fato de que constituiu correspondência entre autores marxistas e militantes, com enormes contribuições à reflexão crítica sobre a escravidão, a questão racial e o desenvolvimento capitalista no país a despeito das diferenças consideráveis entre eles. Jacob Gorender não frequentava salões, menos ainda os universitários; Clóvis Moura tampouco. E Décio Freitas não poupa adjetivos bem pouco meritórios ao ambiente acadêmico e suas pomposas autoridades, exibindo sua própria condição de um intruso numa universidade que se fez cada vez mais acadêmica precisamente porque recusou sua vocação intelectual. Nas ciências humanas essa recusa é particularmente grave e indica considerável contraste com as áreas médicas, biológicas e tecnológicas, embora todas estejam submetidas à dependência científica e a indústria cultural metropolitana-imperialista.
E Mário Maestri? Acaso não era ele também um professor universitário? Bem, Mário atuou nas universidades sem jamais sucumbir a seus fáceis e cômodos encantos… Portanto, remou contra vento e maré durante sua larga trajetória tal como comprova sua demissão da Fundação Universidade de Rio Grande a pedido de Golbery da Costa e Silva, o general que modulou a transição da ditadura para o regime liberal burguês. Ademais, quando logrou novamente um posto universitário, nunca teve vida mansa numa instituição cada dia mais hostil ao marxismo e à orientação crítica, embora não exista registro de lamentações ou penas porque ele sabe como a banda toca para todo aquele intelectual que busca a verdade e mantém o compromisso revolucionário pelo socialismo. Contudo, na medida do possível e nos marcos das regras acadêmicas, jamais vacilou em usar as condições universitárias para apoiar seus camaradas jogados às turbulências da vida sem financiamento fácil ou mesmo emprego regular.
Na importante correspondência que agora o leitor poderá acessar, as cartas com Jacob Gorender – mais numerosas do que todos os demais – constituem mais uma comprovação memorável do árduo e rigoroso trabalho desenvolvido pelo autor do Escravismo colonial, a mais importante obra sobre a escravidão no Brasil. Gorender, após anos de dedicação revolucionou os estudos com original e potente interpretação marxista sobre a escravidão. De fato, foi um esforço imenso, realizado em condições sempre muito precárias, em plena insegurança profissional. Uma conquista monumental que o ocupou durante anos a fio e finalmente foi publicado em 1978! Após tamanho esforço, numa carta de 1985 já anuncia o fastidioso esforço de revisitar o tema uma e outra vez em função do êxito de sua obra genial que o impede de se dedicar a outros projetos que julgava urgentes. Ainda assim, em abril de 1988, anuncia estar debruçado sob produção historiográfica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) na qual constata o “enorme estrago produzido pelas teses de Genovese, Fogel e Engerman” assinalando ironicamente a vitória de Gilberto Freyre que “desprezava os meios acadêmicos”.
Noutra carta, em novembro de 1988, reclama do clima intelectual nas universidades que o obriga a voltar “ao maldito tema da escravidão” necessário para refutar a influência de autores como Castoriadis, Lefort, Thompson etc.” na academia. Contudo, em 1989 já prevê o lançamento de outra obra de combate teórico que, finalmente, apareceria em 1990 com título explosivo e certeiro: A escravidão reabilitada!!!! O objetivo das novas linhas historiográficas alimentadas pela importação universitária pretendia, segundo Gorender, nada menos do que apagar “a significação revolucionária do abolicionismo – um dos movimentos populares mais importantes da história brasileira” (carta de 3/12/1990).
Após o enorme impacto do Escravismo colonial na historiografia sobre a escravidão e na interpretação marxista do desenvolvimento capitalista no Brasil, em 1987 apareceu Combate nas trevas, um livro que minha geração leu com enorme curiosidade intelectual e interesse político. Na prática, o comunista de comprovado compromisso com o socialismo revisava o heroísmo e os erros teóricos e políticos da esquerda que aderiu a luta armada contra a ditadura militar após a derrota do reformismo das forças que sustentaram o governo de João Goulart derrocado em abril de 1964. O impacto do livro foi imenso nas filas da esquerda e creio, em perspectiva histórica, autorizou revisionismos e testemunhos de natureza oposta, destinados ao fomento da resignação e da tentativa de admissão de acadêmicos, intelectuais e políticos outrora combativos, nos estreitos marcos da “sociedade respeitável” sob o argumento da defesa da democracia.
Mais adiante, em junho de 1993, Gorender declara sem mágoa ou tristeza que somente aos 70 anos “recebo convite para atuar no ensino acadêmico”. O lamento fica por conta do princípio de catarata, diminuição da audição e hipertrofia prostática “ainda suportável”. Eram os inevitáveis sinais da velhice e uma ponta de melancolia da qual ele fugia “com trabalho, música, livros e cinema, além dos amigos”. Não por acaso, em 1999 ele volta a cena com um livro declaradamente revisionista, Marxismo sem utopia, e em carta a Mário anuncia que permanecia “firmemente marxista, com a convicção, entretanto, de que o marxismo, para permanecer influente carece de atualização.” E concluiu nessa carta de novembro de 2006 que “a principal atualização consiste, ao meu ver, na depuração de utopismo persistentes. Dois principalmente, como verá: o da produção ilimitada (que levaria a humanidade a seu estado paradisíaco) e o do desaparecimento do Estado.” Mais claro não poderia ser! Mais estimulante, impossível! A propósito, eu o convidei para a apresentação do livro na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) na esperança de um debate ao vivo com quem renunciava aspectos cruciais da tradição marxiana e marxista na mesma medida em que era profundo conhecedor da literatura a respeito. Contudo, naquele tempo, a esquerda já vivia acelerada e completa conversão ao liberalismo que finalmente se confirmou com a vitória de Lula nas eleições de 2002. Naquele contexto, muitos militantes convertidos ao lulismo não vacilaram em utilizar de maneira oportunista o livro de Gorender para simular autoridade na própria conversão liberal, objetivo muito longe das convicções e propósitos de Gorender.
Na carta datada em 10 de setembro de 1985 também indica que o país vivia “uma conjuntura de reflexo do marxismo nos meios intelectuais – os filósofos da moda são Nietzsche e Foucault – e de baixíssima influência política em várias esquerdas de tendência marxista, desde o Partidão ao trotskismo mais ortodoxo”. Não poderia ser mais certeiro no diagnóstico! Ora, na medida em que finalmente a ditadura batia em retirada, Gorender assinala com precisão a derrota ideológica e a renúncia do marxismo como condição para a existência de uma esquerda que deveria lutar contra os perigos inerentes ao regime liberal burguês.
As cartas de Gorender exibem também uma demonstração do trabalho dedicado de um comunista de profundas convicções, genuíno amor pelo trabalho teórico e compromisso com a vida, pois, tudo é realizado sem apoio oficial, sem bolsas, sem remuneração, contando apenas com seu trabalho de tradutor e com amigos e entusiastas que o ajudaram, entre os quais o próprio Mário. Uma beleza! A dedicação do comunista é um contraste com o muro de lamentações que desde muito escuto de colegas nas universidades diante do crônico e acidentado subfinanciamento das nossas instituições não importando a orientação política do governo. De resto, há nas cartas do baiano especial cuidado com a escrita de quem certamente sabia que poderia ser lido no futuro: o estilo literário e a atenção com seu interlocutor é fina e preciosa!
Em março de 1986 anuncia – muitos meses antes da eleição constituinte – que as forças que apoiam Sarney “vencerão com vantagem as eleições para a Constituinte e os governos estaduais”. Não deu outra! É uma lástima que o uso mais intenso do telefone interrompeu a valiosa troca de cartas, cada vez mais raras a partir de 1994.
A correspondência com Clóvis Moura é menor e mais sucinta pois o piauiense foi sempre muito econômico em suas linhas. Entretanto também possuem valor, pois Clóvis, a exemplo de Gorender, jamais gozou da estabilidade econômica necessária em sua contribuição com a reflexão crítica sobre a questão racial no Brasil. Assim, as cartas exibem sentenças e juízos sem exaustiva justificação a despeito de acertar no alvo tendencias e do esforço para estar atualizado na bibliografia sobre seu objeto de estudo. Em julho de 1982, por exemplo, solicita a opinião de Mário sobre o livro de Kátia Mattoso (Ser escravo no Brasil) porque as críticas que dedicou a professora da Universidade Federal da Bahia (UFBa) no Folhetim (FSP) rendeu dissabores pois, como ensina a tradição, “falar dos intocáveis no Brasil dá nisso”. Clóvis assinala que o livro tem “qualidades” a despeito de “inúmeros flancos vulneráveis nos quais não toquei” e, finalmente, arremata afirmando que a tese de Kátia “me parece um amálgama de Gilberto Freyre e o pessoal da Escola da Bahia”.
Em março de 1983 emerge comentário sobre o “socialismo moreno” sem menção a Leonel Brizola, mas indiscutivelmente relacionado à vitória do gaúcho ao governo do Rio de Janeiro. Clóvis, considera a expressão uma “barbaridade” e assinala que “tanto o preconceito quanto as soluções míticas como a do socialismo moreno são fenômenos superestruturais e somente poderão ser compreendidos se partirmos do estudo das relações escravistas e da sua continuidade na consciência depois de abolida a escravidão”. E concluiu de maneira enfática: “O movimento negro (por ser um movimento de classe média) vem trabalhando em cima do superestrutural e daí criar uma ideologia circular que reproduz, em última instancia, a ideologia da burguesia branca. Em outras palavras: burguesia não tem cor, como socialismo não o tem”.
Ainda no mês de março, o recado é curto e certeiro: Clóvis aceita o convite de Mário para um curso aos alunos de História e assinala seu interesse em denominar a conferência como “Escravidão e luta de classes”, um “tema desafiador e necessário no Brasil quando os chamados movimentos de minoria abandonam o fundamental numa divisão que me parece elaborada para dividir o protesto coletivo do sem embasamento maior”. Os temores, suspeitas ou indicações sobre a natureza específica do protesto negro no Brasil e sua evolução política ganhariam a cada dia perfil mais definido confirmando as afirmações de Clóvis.
Nessa carta, datada em 1° de junho de 1986, Clóvis informa a Mário que a exemplo do gaúcho, também escreveu uma novela – O terceiro olho de satanás – mas não encontrou editor disposto a publicá-la: “no fundo foi paúra política” e conclui: “o meu não dá para retrabalhar. Fica na gaveta para outra eternidade…”. Na mesma missiva anuncia que pretende concluir Sociologia do negro brasileiro publicado, como sabemos, dois anos depois, em 1988. Em fevereiro de 1987, agradece a Maestri contatos para publicação de livro (sem especificar qual) e acusa a inflação “de livros estrangeiros de autores medíocres acobertados por uma onda de publicidade dirigida e safada”.
Em setembro de 1997 Clóvis agradece matérias enviadas por Maestri e informa a intenção de escrever (se tiver tempo) “um trabalho sobre raça-classe e procurar ver como esses dois conceitos se fundem no mundo da Afro-América” e, de quebra, acusa “os prejuízos que o marxismo soviético proporcionou à revolução cubana no nível das relações interétnicas” que, finalmente, o levou a considerar a hipótese. A bronca fica por conta de sua participação no V Congresso Afro-Brasileiro em Salvador marcado pelo “repetitório acadêmico, desfile de vaidades e retaliações negro x branco. Uma merda. Os movimentos negros, por outro lado, ao tempo em que apresentam um discurso ultrarradical contra os brancos, aceitam postos no governo de Fernando Henrique Cardoso e deles se aproveitam para viajarem de aviação de graça…”. Pobre Clóvis, apenas farejou a tendência que se tornaria uma festa nos governos de Lula! Uma forma de mobilidade social que o piauiense sequer poderia imaginar, mas certamente não se espantaria.
A novidade da correspondência é que Mário Maestri incluiu nesse volume duas cartas de Caio Prado Júnior dirigidas à Clóvis – ambas valiosíssimas! – datadas nos distantes 1949 e 1952. Na primeira, Caio Prado responde ao jovem de 24 anos na qual informa que está enviando um exemplar de Quilombo dos Palmares de Edison Carneiro e a promessa de remeter logo que sair do prelo sua História Econômica. Caio Prado já contava com 42 anos e as recomendações ao jovem pesquisador autodefinido como comunista são, de fato, comoventes. Entre as muitas recomendações, Caio afirma não ter meios de ajudá-lo na pesquisa sobre a revolta dos escravos porque teria que enviar “uma biblioteca sobre o assunto”. Entretanto, diante da intenção de fazer algo original, Caio Prado indica que o único caminho é a pesquisa no “mundo ou no meio que o rodeia”. O paulista alega que o jovem “vive numa região onde a escravidão nunca teve um papel” e, em consequência, diante da ambição de seu projeto, a obra seria sem dúvida muito limitada. Contudo, sob a alegação que “os homens são homens em toda parte”, orienta Clóvis com importante guia de pesquisa que certamente exerceu influência duradoura em sua trajetória. E arremata: “o valor de uma obra não se mede pelo assunto, mas pelo seu conteúdo, lembre-se disso”. Não é uma maravilha?[1] Presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA) e professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


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